Numa carreira recheada de êxitos as memórias são incontáveis. Nesta entrevista Lisboa recorda alguns dos grandes momentos por que passou, como os 45 pontos que marcou ao Partizan, na Luz, ou os encontros em que defrontou Magic Johnson e Dominique Wilkins.
Quem foi o melhor adversário que defrontou?
Foi uma honra jogar contra o Magic Johnson. Aconteceu no Porto, no Pavilhão Rosa Mota, uma Selecção portuguesa jogou contra a equipa dele. Nas primeiras jogadas defendemo-nos mutuamente e eu estava num naqueles dias... Ao fim da terceira bola, eu tinha já marcado dois ou três triplos e ele pediu ao treinador para trocar.
Joguei também contra um dos grandes nomes do basquete mundial, que foi o Dominique Wilkins, do Panathinaikos, mas já o tinha defrontado quando ele ainda estava na Universidade de Geórgia, quando lá fui com a Selecção.
Aliás, nesse encontro aconteceu uma coisa engraçada: antes do jogo o treinador distribuiu as marcações, mas nem nós os conhecíamos, nem eles nos conheciam a nós. O nosso base era o José Luís Almeida, os extremos eram eu e o Rui Pinheiro, depois tínhamos o Eustácio Dias e o Artur Leiria. Eu estava a com o Pinheiro a ver quem eram os extremos e chegámos à conclusão que eram os números 21 e 42. O 42 era um rapaz negro muito forte, com uns dois metros, e o 21 era muito fininho. O Rui disse-me que se encarregava do 21 e que eu ficava com a “torre”.
A primeira bola do jogo foi para fora, houve lançamento lateral e quem foi pôr a bola em jogo foi o jogador que eu estava a defender. Levantei os braços, de repente vejo a bola a avançar, virei-me e vejo um jogador, o 21, a voar, a passar com a bola perto da cara do Rui Pinheiro e a afundar... O Rui depois disse-me, “oh Carlos na próxima jogada trocas” e eu respondi “não, não, agora ficas com ele até ao fim...” Foi um festival até ao final vimos o Rui Pinheiro, todo despenteado, a ver o Dominique voar... Fartámo-nos de rir com isso.
Depois apanhei-o aqui, quando jogámos contra o Panathinaikos, que ganhámos, num jogo em que eu e o Jean Jacques fizemos aquela jogada em contra-ataque, em que o Jean terminou com aquele afundanço por cima da cabeça dele... Falei com ele durante um lance-livre e ele lembrava-se de ter jogado contra Portugal nos EUA.
Qual foi o seu melhor jogo?
Os melhores foram os que ganhei. Mas o jogo com o Partizan marcou-me, ainda há dias estive a ver com os meus filhos e de cada vez que revejo a cassete quase que choro. Tenho uma vontade de jogar... Tínhamos ido lá na semana anterior e empatámos 71-71, mas em casa o jogo correu-me muito bem. Houve outros, por exemplo, contra o Panathinaikos, aqui na Luz, quando me lesionei numa fase em que estava a jogar bem; contra o Macabi... Jogos em Portugal contra o FC Porto, contra a Ovarense.
Mas o que fica na memória das pessoas é aquele com o Partizan...
... Porque marquei 45 pontos, porque fiz 10 em 15 em lançamentos de 3 pontos, porque significou o apuramento, mais uma vez para a Euroliga. Por tudo isto pode dizer-se que foi o jogo memorável.
Foi em 1984/85, já tinha feito uma época pelo Benfica. As equipas de Toronto e Vancouver só apareceram passados 4 ou 5 anos e naquela altura houve a hipótese de um patrocinador da América do Sul criar uma equipa. Recebi uma carta, que ainda tenho, de um treinador, que seria o treinador da equipa, a convidar-me para eu fazer parte do plantel.
Naquela altura era muito difícil surgirem equipas, era preciso preencherem uma série de requisitos. Jogar na NBA é máximo que pode acontecer na carreira de um jogador, mas infelizmente, ou felizmente, acabei por não ir, a equipa não se formou. Só surgiu 5 ou 6 anos depois. Os números que foram falados, mesmo naquela altura eram astronómicos, e eu nem dormia, era o sonho de qualquer jogador... Recebi depois uma carta em que me explicavam que a equipa não se formava porque havia uma série de normas que eram necessárias. Naquela altura nem sei se havia algum jogador na NBA que não fosse americano.
Existem muitas diferenças entre o basquetebol que praticou e o de agora?
Sim, mudaram algumas coisas, o jogo tornou-se muito mais rápido com os 24 segundos para atacar, enquanto na altura eram 30; em termos físicos, temos jogadores com grande capacidade atlética, no que diz respeito ao talento...
As metas que se colocam hoje em dia em termos de selecção, sobretudo depois de Portugal ter ido à fase final de um Europeu, são diferentes do seu tempo?
Houve mérito do grupo, mas a sorte procura-se e nós nesse Europeu soubemos procurá-la; agarrámos a nossa oportunidade na hora certa. Mas esse facto não espelha nem pouco mais ou menos a realidade do basquetebol português. Custa-me dizer isto porque eu gostava que a nossa Selecção estivesse sempre nas fases finais dos Campeonatos da Europa de todos os escalões, que as nossas equipas do campeonato tivessem capacidade desportiva para estarem nas competições europeias, como aconteceu em outros tempos, mas neste momento isso não existe, a não ser uns casos pontuais. Portugal acaba por ter mérito por estar presente, esperemos que no próximo Campeonato da Europa consiga atingir outra vez a fase final. É difícil, mas com trabalho poderá lá chegar.

Sem comentários:
Enviar um comentário